sexta-feira, 22 de maio de 2009
Que as minhas mãos encontrem as suas mãos
Num passeio, sob sol escaldante,
após percorrer teu corpo inteiro,
procurando, na tua graciosa anatomia,
Nos teus seios fulgurantes, no teu ventre ontogênico,
Nas tuas pernas generosas, e na tua boca elegante,
Mais que a expressividade de teus esmaltes.
Em cada reentrância, saliência, acidente,
outras casualidades, depressões, obliterações,
enchergar muito mais que árvores, montanhas, montes,
um mar salgado e maternal,
um homem e uma mulher,
face to face, cara a cara,
um sorriso provocante.
Achando as vivências mais profundas,
que se transformam numa geografia,
sombra de tua silhueta,
refletida pela luz da lua,
cheia,
boêmia,
no sertão, nas cálidas noites, da América Latina,
onde, de nosso quarto, avistamos todos os ciclos,
equinócios, solstícios,
o sol e a lua,
A estrela d'alva, vênus vespertina,
Nos cem mil anos - talvez mais -megalítícos,
de nossas vidas
POEMAS DO MUNDO
Do meu lugar não há registos
nem mapas
nem retratos.
Para falar dele terei de mencionar
um raio de sol manso
a nascer na transversal
das tábuas do soalho.
O meu lugar é a pura geografia.
Sem o sítio.
Mais o sítio.
Continente doce onde se inscreve
o pão de cada dia
e a mecânica dos ossos a ranger.
No meu lugar
a primavera nasce
suave e rumorosa
suspensa sobre pétalas de luz.
Cada pequeno animal
sai da pedra que o protege
e corre pelo seu mundo que é também o meu mundo
e leva os meus olhos
e regressa com perguntas.
O meu lugar existe
porque existe uma andorinha a dançar
em seu redor
e tudo se torna verde e depois maduro
e há um sumo de laranja
que escorre dos lábios por volta do meio-dia.
No meu lugar há círculos abertos
e todas as poções intentam misturar-se
para que a voz do coração se torne
num ofício de ventos e de cravos.
O meu lugar
é tão belo.
É tão belo
e tão breve
o meu lugar.
José Fanha